Ricardo Amorim
Gastar o dinheiro do futuro hoje? Péssima ideia

Por Ricardo Amorim
Recentemente, o presidente Lula fez um discurso que apontava para um pequeno déficit primário no orçamento do governo federal em 2024, contrariando suas promessas anteriores de equilíbrio.
Mesmo que o tamanho do déficit não preocupasse, a quebra de promessa, preocupou, sim. Ela se assemelhava ao caso de um ex-alcoólatra, que prometeu não beber, mas pouco depois, diz ‘é só um pouquinho’.
Infelizmente, o histórico brasileiro de déficits públicos prejudica nossa credibilidade. Gastar mais do que se ganha sempre aumenta o endividamento de quem faz isso, seja no caso do setor público, de uma família ou de uma empresa.
No caso de um país, isso afasta potenciais investidores, reduzindo a geração de empregos. A mera sinalização de que isso poderia acontecer já causou, inicialmente, uma alta do dólar, uma queda da Bolsa e uma alta nas taxas de juros praticadas pelo mercado. Se mantidas essas tendências, acabaríamos com mais inflação e menos empregos e crescimento econômico.
Felizmente, a partir da reação dos mercados, o governo voltou atrás na ideia de abandonar a meta de equilíbrio fiscal. Em resposta, o dólar e as taxas de juros caíram e a Bolsa subiu.
Se, de fato, tivéssemos um déficit primário em 2024, o aumento do endividamento público que ele causaria reduziria também a disponibilidade de crédito para o setor privado, já que uma parte da disponibilidade do crédito no país seria redirecionada para financiar o governo. Isso prejudicaria a economia.
No longo prazo, um descontrole permanente das contas públicas pode gerar problemas ainda mais graves, como aconteceu na Argentina e na Venezuela.
Cuidar do orçamento é o único caminho para garantir, de forma permanente, recursos para áreas fundamentais, como educação, saúde e segurança.
Cuidar das contas públicas significa garantir recursos não só para o presente, mas também para o futuro. Negligenciar as contas públicas, gastando mais do que arrecadamos, endividando o país, é uma forma de usar o dinheiro do futuro no presente. No futuro, vai faltar. Qualquer semelhança com a história da formiga e da cigarra não é mera coincidência.
Ricardo Amorim
Isenção do IR: O barato que sai caro

O governo mandou ao Congresso uma proposta para isentar do imposto de renda quem ganha até R$ 5 mil por mês. A princípio, parece uma boa notícia: mais dinheiro no bolso do trabalhador que ganha menos. Infelizmente, quando se analisam os detalhes da proposta com atenção, o que parece solução pode se transformar em um novo problema – e grande.
Toda vez que qualquer governo começa a perder popularidade, aumenta a tentação de adotar medidas populistas. Elas soam bem, inicialmente agradam muita gente e geram manchetes positivas. A conta salgada vem depois. É o que está acontecendo agora.
Com a queda de popularidade do governo, a estratégia tem sido simples: agradar com medidas de apelo imediato. A mais recente é a proposta de isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. A proposta seria efetiva se fosse financiada por um corte de gastos equivalente à perda de arrecadação que vai causar – por exemplo, uma reforma administrativa ou a extinção de penduricalhos, como o auxílio-peru de Natal, pagos a parcelas do funcionalismo público.
Só que não foi isso o que foi proposto. Para cobrir a perda de arrecadação, o governo quer taxar ainda mais quem já paga imposto. A proposta é criar um novo tributo sobre a distribuição de lucros e dividendos, além de um adicional de imposto de renda para quem ganha mais de R$ 50 mil por mês.
Isso pode, inclusive, eventualmente ser considerado bitributação pela Justiça. Se isso acontecer, a expectativa de compensação de arrecadação do governo será frustrada, fragilizando ainda mais as já combalidas contas públicas. Empresários já pagam imposto de renda sobre os resultados de suas empresas. Agora, o governo quer tributá-los novamente quando esse lucro for distribuído aos sócios ou acionistas. A bitributação não para por aí: se a pessoa receber acima de R$ 50 mil por mês, pagará um adicional de imposto de renda.
Além do risco jurídico, há outro obstáculo à proposta: o próprio Congresso. Os parlamentares seriam diretamente afetados pela nova cobrança. Será que votarão contra seus próprios interesses?
Mas a questão mais grave, estrutural, é outra. Hoje, o Brasil tem 212 milhões de habitantes. Apenas 44 milhões declaram imposto de renda. Desses, só 28 milhões efetivamente pagam atualmente. Os demais já são isentos. Com a nova medida, no máximo 16 milhões de brasileiros pagarão imposto de renda para bancar gastos públicos destinados a 212 milhões de brasileiros. Em outras palavras, cada contribuinte do imposto de renda precisará bancar gastos públicos – que vêm crescendo com a expansão dos programas sociais como Bolsa Família, Pé de Meia, Auxílio Gás e outros – para 13 brasileiros.
Um regime em que cada vez menos gente paga e cada vez mais gente recebe não tem como se sustentar ao longo do tempo, pois incentiva as pessoas a deixarem de trabalhar e a saírem do grupo dos que pagam para irem ao grupo dos que recebem.
A diferença entre medidas verdadeiramente benéficas e medidas populistas está aí: nas primeiras, os benefícios se sustentam ao longo do tempo; já as últimas trazem ganhos de curto prazo, mas ao custo de perdas maiores no futuro.
Ricardo Amorim
Sem alicerce, não há edifício que pare em pé

Imagine tentar construir um prédio em um terreno instável, sem uma base sólida. É assim que fica a economia de um país que descuida das suas finanças públicas. Sem a segurança de que a solvência pública é uma certeza, fragiliza-se a base da economia.
Sem segurança fiscal, cria-se instabilidade econômica, tirando a confiança de
empresários e empreendedores, que deixam de investir e gerar empregos.
Quando o governo de um país sistematicamente gasta mais do que arrecada e não controla o déficit fiscal, o resultado é previsível: moeda desvalorizada, inflação subindo, juros mais altos e menos crédito disponível. Tudo isso impacta diretamente a capacidade de empreendedores financiarem e expandirem seus negócios.
Em um ambiente onde o custo do dinheiro é elevado e a previsibilidade econômica é baixa, a economia começa a entrar em marcha ré. Empresas e empreendedores ficam mais preocupadas em não perderem dinheiro do que em expandir seus negócios pequenos e médios negócios, que dependem de crédito para crescer e gerar empregos, são os primeiros a sentir o impacto de uma economia desorganizada. É como correr uma maratona com uma mochila cheia de pedras: você até pode avançar, mas o esforço será muito maior.
Além disso, contas públicas fora de controle afastam investidores, tanto nacionais quanto estrangeiros. Sem investimentos, setores cruciais para o crescimento – como infraestrutura, educação e inovação – ficam estagnados.
Empresas competem em um cenário onde faltam estradas, burocracia atrasa processos e a mão de obra carece de qualificação. O cuidado com as contas públicas não é um tema distante para os negócios e os empregos. Na verdade, é o que define se haverá recursos para investimentos produtivos, se os juros serão controlados e se a confiança econômica permitirá que empreendedores assumam riscos calculados para crescer e gerem empregos.
Quando o governo faz a lição de casa, o país cresce, as empresas têm espaço para inovar, e os brasileiros encontram novas oportunidades de trabalho e renda.
Portanto, cuidar das finanças públicas é, em última instância, cuidar do ambiente de negócios. É dar aos empreendedores a base que eles precisam para fazer o que sabem de melhor: inovar, gerar empregos e impulsionar o crescimento do país. Quando o governo age com responsabilidade fiscal, todos ganham.
Contas públicas organizadas não são um luxo, são uma necessidade. Elas não garantem o sucesso de um país, mas sem elas, o fracasso se torna a regra.