Naty Sanches
Muito além do licenciamento: Bridgerton e a nova lógica da experiência de marca

*por Naty Sanches
Se você conhece Bridgerton, da Netflix, o drama romântico ambientado na aristocracia inglesa do período Regencial inspirado em uma série de livros, marcado por bailes luxuosos, códigos sociais rígidos e uma estética visual altamente distintiva, precisa saber que o fenômeno vai muito além do streaming.
A série se tornou um case relevante de estratégia de experiência de marca, especialmente quando analisamos a amplitude e a sofisticação dos produtos licenciados lançados no Brasil. O que começou como entretenimento evoluiu para um ecossistema de consumo que traduz narrativa em lifestyle: moda, beleza, papelaria, bebidas, fragrâncias e até experiências imersivas inspiradas nos bailes da alta sociedade londrina.
Mais do que estampar personagens em embalagens, a lógica aqui é outra. Trata-se de transpor atributos simbólicos, romantização da rotina, estética vintage reinterpretada, senso de exclusividade e escapismo aspiracional, para categorias de produto que ampliam o universo ficcional para o cotidiano do consumidor.
Esse movimento revela um ponto estratégico: quando uma obra cria um território cultural forte, ela deixa de ser apenas conteúdo e passa a ser plataforma de marca. E é exatamente nessa transição que Bridgerton se consolida como um dos exemplos mais interessantes de licenciamento orientado por experiência no Brasil recente.
A Netflix estabeleceu parcerias com diferentes marcas, que passaram a incorporar o universo narrativo da série em suas campanhas e a lançar edições limitadas de produtos inspiradas na estética e nos elementos simbólicos da história.
Comfort
A Comfort, marca de amaciantes da Unilever, lançou a linha Segredos Bridgerton, disponível em amaciante concentrado e perfume para roupas. A campanha aposta em uma narrativa cinematográfica protagonizada por Hugh Sachs, intérprete de Brimsley, o mordomo da Rainha Charlotte.
O filme combina investigação e romance ao revelar o mistério das flores desaparecidas, cuja essência teria sido preservada na fragrância do produto, conectando storytelling e atributo funcional (perfume marcante).
A estratégia 360º amplia essa construção sensorial com relógios florais em OOH (Out-of-Home) espalhados por São Paulo e experiências imersivas no Carnaval, reforçando o posicionamento de alta perfumação e sofisticação. Na Estação Faria Lima, por exemplo, o público foi impactado por uma ativação com “explosão” de fragrâncias, transformando o ambiente urbano em uma extensão do universo da série.
Brutal Fruit Spritzer e Tônica Antarctica
A Ambev, por meio das marcas Brutal Fruit Spritzer e Tônica Antarctica, desenvolveu uma estratégia abrangente de experiências.
A estratégia começou com ativações no Carnaval e no Baile da Vogue 2026, tendo como embaixadores os artistas Agatha Moreira, Rodrigo Simas, Clara Moneke e Breno Ferreira, ampliando o alcance cultural da ação.
Voltada diretamente aos fãs, a iniciativa ganhou escala no Shopping Eldorado com a exposição O Closet de Bridgerton, que trouxe ao Brasil, de forma inédita, nove figurinos originais das quatro temporadas da série. A experiência foi complementada por dois bares temáticos, um de Brutal Fruit Spritzer e outro dedicado à Tônica Antarctica Intense, além de cenários exclusivos para fotos. A entrada foi gratuita, com visitação entre 5 e 11 de março.
No fim de semana de 7 e 8 de março, o Bar dos Arcos, no Centro Histórico da capital paulista, recebeu uma ambientação completa inspirada na alta sociedade londrina retratada na série. A marca distribuiu bebidas e ofereceu fotos impressas como lembrança da experiência, reforçando o caráter memorável da ação.
Já na Avenida Paulista, um dos principais cartões-postais da cidade, o público encontrou uma carruagem cenográfica, elemento icônico da narrativa, instalada no Shopping Cidade São Paulo. A ativação ocorreu entre os dias 6 e 12 de março, consolidando a presença da marca no circuito urbano e transformando espaços públicos em extensões físicas do universo ficcional.
Risqué e Paixão
As marcas Risqué e Paixão, pertencentes ao grupo Coty, uniram forças em um movimento inédito dentro da companhia: é a primeira vez que duas marcas do portfólio trabalham juntas em um mesmo projeto de licenciamento. Os lançamentos chegam ao mercado em edição limitada.
A coleção Risqué x Bridgerton apresenta nove esmaltes exclusivos, com acabamentos metálicos, cintilantes e cremosos, além de um sérum nutritivo para unhas e cutículas, formulado com óleo de amêndoas, reforçando o apelo de cuidado e sofisticação.
Já na perfumaria corporal, a linha Dama de Prata, de Paixão, aposta em uma fragrância oriental gourmand amadeirada, que combina flor de íris com notas de amêndoas caramelizadas. O portfólio inclui loção corporal, óleo corporal e loção para mãos, ampliando a experiência sensorial da parceria.
Para sustentar o lançamento no varejo, as marcas ativaram a coleção com uma pop-up imersiva no Shopping Center Norte, entre 26 de fevereiro e 4 de março de 2026. A experiência física contou com mecânica “compre e ganhe” e foco em engajamento sensorial no ponto de venda, traduzindo o imaginário da série em experimentação concreta de produto.
Seara Gourmet
A Seara Gourmet, marca do grupo JBS, lançou pela primeira vez uma linha de produtos associada ao universo de Bridgerton, ampliando a presença da narrativa da série para a categoria de alimentos premium.
O portfólio inclui Duo de Salames e Copa, panelinha de filé ao molho de pimenta com purê e queijo, panelinha de mousse com chocolate belga e um kit presenteável que combina o duo de embutidos com vinho e alho negro — reforçando o posicionamento gourmet e a proposta de ocasiões especiais de consumo.
A narrativa da campanha se apoia em elementos recorrentes da série, como encontros sociais, recepções e jantares sofisticados, que estruturam a dinâmica da alta sociedade retratada na trama. Ao traduzir esses rituais para o contexto gastronômico, a marca conecta produto e storytelling, transformando momentos de consumo em extensões do universo ficcional.
Nivea
A Nivea lançou uma colaboração com a série, para apresentar uma linha de hidratantes labiais em edição limitada.
A coleção reúne quatro versões exclusivas, cada uma inspirada em uma das temporadas da série e nos respectivos casais protagonistas, traduzindo os romances centrais da narrativa em fragrâncias e embalagens que dialogam com a estética e o imaginário de cada fase da trama.
O movimento em torno de Bridgerton oferece mais do que um case de licenciamento bem-sucedido, revela um conjunto estruturado de decisões estratégicas que podem orientar futuras collabs entre marcas e propriedades culturais. Ao analisar essas iniciativas sob a ótica de branding, experiência e geração de valor, emergem aprendizados claros sobre território cultural, execução omnichannel, sensorialidade, coerência de posicionamento e métricas de longo prazo. A seguir, os principais pontos que merecem atenção em lançamentos dessa natureza.
1. Comece pelo território cultural, não pelo produto
Antes de discutir portfólio ou embalagem, é fundamental mapear quais códigos culturais o IP representa e como eles dialogam com o posicionamento da marca. Isso exige leitura estratégica do imaginário que a obra ativa, valores, rituais, estética, emoções, e clareza sobre quais desses elementos são transferíveis para a categoria. O produto deve ser a materialização dessa interseção, não o ponto de partida.
2. Defina uma tese estratégica clara
Toda collab precisa responder a uma pergunta central: qual objetivo de negócio ela resolve? Awareness, rejuvenescimento, premiumização, ganho de market share, aumento de ticket médio? Sem tese estratégica explícita, a ação corre o risco de se tornar apenas oportunista. A clareza de propósito orienta desde o desenvolvimento do portfólio até o plano de mídia e os KPIs.
3. Integre físico, digital e social
Lançamentos desse porte performam melhor quando operam em lógica omnichannel. Experiência no ponto de venda, ativações, presença em eventos e amplificação digital precisam funcionar de maneira integrada.
4. Trabalhe sensorialidade como diferencial
Collabs inspiradas em universos estéticos fortes devem explorar dimensões sensoriais: cheiro, textura, ambientação, ritual de uso, trilha sonora, cenografia. A experiência física cria memória emocional e aumenta a percepção de valor.
5. Planeje escassez com intenção
Edições limitadas funcionam quando há coerência entre exclusividade e narrativa. A limitação de estoque deve reforçar posicionamento premium e gerar urgência sem comprometer a percepção de qualidade. A gestão de oferta precisa ser calculada para equilibrar desejo, acesso e percepção de valor, evitando tanto excesso quanto frustração.
Em um mercado saturado de mensagens, o caso de Bridgerton mostra que marcas se destacam quando transformam cultura em experiência real. Não é sobre aproveitar um hype, mas sobre ter clareza estratégica, coerência com o posicionamento e execução integrada entre produto, comunicação e ponto de contato. Quando bem planejado, o licenciamento deixa de ser uma ação pontual e se torna uma alavanca consistente de relevância, valor de marca e crescimento.
Naty Sanches
Os pesadelos da comunicação: campanhas que se tornaram crises de marca

Por Naty Sanches
No universo da comunicação, nem toda campanha alcança o resultado esperado. Algumas, inclusive, acabam produzindo o efeito oposto: ao invés de fortalecer a imagem de uma marca, desencadeiam crises de reputação. Falhas de sensibilidade, escolhas criativas equivocadas e a falta de atenção ao contexto cultural e social podem transformar uma ação publicitária em um problema de grandes proporções.
Mesmo marcas consolidadas no mercado não estão imunes a esses erros. Casos envolvendo empresas globais mostram como decisões aparentemente pontuais podem ganhar repercussão, gerar críticas e exigir respostas rápidas das equipes de comunicação.
Aproveitando o clima de Halloween, resolvi listar alguns dos verdadeiros pesadelos de quem trabalha com comunicação: campanhas que, por diferentes razões, acabaram se tornando exemplos do que não fazer.
Converse (2026): a Converse retirou do ar uma campanha publicitária do modelo Chuck 70, estrelada por Karina, integrante do grupo de K-pop aespa, após receber críticas de usuários que identificaram possíveis referências visuais à Ku Klux Klan (KKK) e a linchamentos. Uma das imagens foi associada ao formato do capuz usado pelo grupo supremacista, enquanto outra, que mostrava tênis pendurados, foi interpretada como uma alusão a vítimas de linchamento.
A repercussão levou a marca a remover a publicidade das redes sociais e a publicar um pedido de desculpas – já removido. Em comunicado, a Converse reconheceu o impacto negativo da peça: “Pedimos desculpas. Entendemos por que essa imagem é profundamente perturbadora e reconhecemos que erramos”.
Burger King (2024): conhecido por sua comunicação provocativa, o Burger King gerou controvérsia ao lançar uma campanha do Whopper que tinha como protagonista Kid Bengala, ator de filmes adultos. Para reforçar o conceito de exagero, a peça explorava o duplo sentido do tamanho do sanduíche, com a frase: “Quem disse que tamanho não é documento nunca viu esse exagero”. A publicidade dividiu opiniões nas redes sociais e gerou críticas pelo teor sexual da abordagem. Diante da repercussão, a rede retirou o anúncio do ar e foi alvo de um processo no Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar). Em comunicado, a marca justificou a retirada como uma medida para evitar o prolongamento das discussões e da polarização em torno da campanha.
Gucci (2019): a Gucci foi criticada por comercializar um suéter preto que cobria parte do rosto e tinha uma abertura vermelha na região da boca. O design foi associado ao blackface, prática historicamente utilizada para ridicularizar pessoas negras. A marca retirou o produto de circulação e pediu desculpas publicamente.
H&M (2018): a varejista recebeu críticas após divulgar a imagem de um menino negro vestindo um moletom com a frase Coolest Monkey in the Jungle (O macaco mais legal da selva). A peça foi considerada racista, especialmente pela associação histórica entre pessoas negras e macacos. A marca retirou a imagem, pediu desculpas e removeu o produto de seus materiais publicitários.
Dove (2011 e 2017): a Dove enfrentou críticas em duas ocasiões por campanhas consideradas racistas. Em 2011, ao divulgar o sabonete líquido Dove VisibleCare Creme Body Wash, a marca apresentou uma sequência de imagens que mostrava uma mulher negra, identificada como o “antes”, dando lugar a uma mulher branca, no “depois”, acompanhada da mensagem de que o produto proporcionava uma pele visivelmente mais bonita. A composição foi criticada por sugerir uma associação entre a pele branca e a beleza. Seis anos depois, a marca voltou a gerar controvérsia com um GIF de três segundos em que uma mulher negra retirava a camiseta e se transformava em uma mulher branca, que, por sua vez, dava lugar a uma mulher asiática. A peça foi interpretada como uma associação entre a pele negra e a sujeira.
Diante da repercussão, a Dove retirou a publicação e pediu desculpas publicamente, reconhecendo que a peça não representava os valores da marca.
Nivea (2017): a Nivea também enfrentou acusações de racismo ao lançar uma campanha voltada ao público do Oriente Médio, com o slogan White is Purity (Branco é Pureza). A publicidade, que promovia um desodorante, associava a cor branca à pureza e à limpeza, uma escolha que gerou críticas por suas possíveis conotações raciais. A repercussão foi ampliada nas redes sociais, onde usuários questionaram a mensagem e a falta de sensibilidade da marca ao abordar temas relacionados à cor da pele.
Olhar para esses cases dá uma sensação incômoda, mas eles trazem um recado: a criatividade, por si só, não garante uma comunicação bem-sucedida. A intenção original de uma equipe criativa importa pouco quando a execução desconsidera a sensibilidade do público, ignora contextos culturais ou recorre a estratégias apelativas para gerar repercussão. Hoje, os consumidores questionam as mensagens, interpretam seus subtextos e cobram posicionamentos das marcas.
Garantir diversidade nas equipes de aprovação, avaliar os possíveis impactos de uma campanha, beber de muitas referências históricas e considerar diferentes perspectivas antes de sua veiculação não são meras formalidades. São cuidados fundamentais para reduzir riscos e evitar que uma ação planejada para fortalecer a marca se transforme em uma crise de reputação. Afinal, no universo da comunicação, prevenir um erro pode ser tão importante quanto saber reagir quando ele acontece.
Naty Sanches
Quando a gafe vira oportunidade: o que Heineken e Corona ensinam sobre real-time marketing

Por Naty Sanches
Uma foto postada por Shawn Mendes para felicitar Bruna Marquezine teve um detalhe importante, pelo menos para as equipes de marketing de duas grandes empresas. Era uma imagem do casal consumindo Heineken. Até aí, tudo bem, certo? Não exatamente.
Bruna tem contrato de exclusividade com a Corona e o registro rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais. O que poderia ser apenas uma situação desconfortável para uma das empresas se transformou em uma oportunidade de comunicação para as duas.
A Heineken entrou na conversa com o conceito de “Pack Anti-Paparazzi”, brincando justamente com a necessidade de esconder o produto em situações como aquela. A Corona, por sua vez, respondeu incorporando a própria Bruna à comunicação, em uma abordagem provocativa e bem-humorada. No vídeo, a atriz abre uma cerveja, ri e comenta: “o que foi? Você achou que seria o que?”.
As duas participaram da mesma conversa, mas escolheram caminhos diferentes. A Heineken aproveitou o contexto para fazer humor com a situação. A Corona transformou o episódio em uma oportunidade para reafirmar sua relação com Bruna.
E os números mostram o tamanho da repercussão. O vídeo da Corona com a atriz alcançou cerca de 13,5 milhões de visualizações, mais de 9 mil comentários e quase 2 mil reposts. Já a publicação da Heineken registrou cerca de 600 comentários e uma média de 100 reposts.
Mais do que uma disputa entre concorrentes, o episódio é um bom exemplo de como empresas podem participar de conversas que não foram planejadas e de como a velocidade, quando acompanhada de contexto e criatividade, pode gerar valor para a comunicação.
O planejamento também precisa deixar espaço para o imprevisto
Uma das mudanças mais interessantes trazidas pelas redes sociais para a comunicação é que nem tudo acontece dentro do calendário das empresas. A conversa pode começar em uma publicação pessoal, ganhar força entre os usuários e, em poucas horas, se transformar em um assunto relevante para os anunciantes. É nesse espaço que entra o real-time marketing.
Mas reagir rapidamente não significa simplesmente publicar qualquer coisa sobre um assunto que está em alta. É preciso entender se existe espaço para participar daquela conversa e qual abordagem faz sentido para o posicionamento de cada empresa.
No caso de Heineken e Corona, esse entendimento foi particularmente importante. Havia uma situação envolvendo duas concorrentes, uma celebridade e um contrato de exclusividade. Uma resposta equivocada poderia gerar mais problemas do que oportunidades.
Três aprendizados para as marcas
O primeiro é que planejamento e agilidade não são opostos. Uma estratégia bem construída também precisa permitir que uma empresa reaja ao que não estava previsto. Afinal, nem toda oportunidade de comunicação aparece no calendário.
O segundo é que contexto importa tanto quanto criatividade. A mesma situação pode gerar respostas completamente diferentes e, no caso de Heineken e Corona, foi justamente a identidade de cada uma que definiu o caminho escolhido.
O terceiro é que estar preparado para reagir faz parte da estratégia. Monitorar conversas, entender a cultura das redes e ter equipes capazes de tomar decisões rapidamente são fatores que aumentam as chances de aproveitar momentos que surgem espontaneamente.
No fim, o caso envolvendo Shawn Mendes e Bruna Marquezine mostra que as melhores oportunidades de comunicação nem sempre chegam com briefing, cronograma ou aprovação prévia. Algumas simplesmente aparecem.
Para as empresas, o desafio não é controlar tudo o que acontece. É saber reconhecer quando vale a pena entrar na conversa e encontrar uma forma de fazer isso que pareça natural, relevante e, principalmente, coerente com quem são. Porque, em um ambiente em que as conversas mudam em questão de horas, estar preparado para o imprevisto também é uma forma de planejamento.







