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Quando o esporte deixa de ser patrocínio e passa a ser plataforma de marca

*Giovana Orlandeli
Durante muito tempo, a presença das marcas no esporte esteve concentrada na lógica de transferir aos produtos atributos como performance, disciplina, superação e excelência. Essa estratégia continua relevante, mas já não é suficiente para responder à maneira como as pessoas se relacionam hoje com o movimento.
O esporte deixou de ser apenas um momento isolado na agenda e passou a ocupar uma função mais ampla na vida cotidiana. Treinar, correr ou participar de uma aula funcional significa socializar, cuidar da saúde e fazer parte de uma comunidade. A prática esportiva passou a influenciar escolhas de moda, beleza, alimentação, mobilidade e bem-estar, ampliando o número de categorias que podem participar dessa conversa de forma legítima.
Essa mudança transforma o papel das marcas: mais do que patrocinar, é preciso entender como fazer parte da experiência antes, durante e depois da atividade. É nesse ponto que o esporte deixa de funcionar apenas como mídia e passa a ser um território capaz de gerar conteúdo, experimentação, relacionamento e continuidade.
Uma plataforma esportiva relevante não se limita ao momento de maior audiência, ela acompanha comportamentos e cria pontos de contato reais. Isso acontece por meio de diversos fatores, como experiências presenciais, soluções funcionais, conteúdos educativos, ativações com especialistas ou iniciativas que conectem a performance a outros aspectos da vida da consumidora.
Por muito tempo, esporte e cuidado pessoal foram tratados como universos separados, como se a prática esportiva exigisse abrir mão da estética ou como se beleza estivesse
restrita aos momentos posteriores ao treino. Hoje, o cuidado com a pele, cabelos e corpo acompanha a rotina ativa. Foi a partir dessa leitura que Eudora desenvolveu a plataforma #ReparaNoTreino, que chama a atenção para os efeitos do suor, da exposição solar, do atrito e das lavagens frequentes nos fios. Mais do que inserir produtos no contexto esportivo, a marca amplia a discussão sobre o cuidado capilar, mostrando como ele pode acompanhar quem se movimenta.
Alinhado a esse movimento, o nosso o patrocínio ao Vogue GQ Sport Club 2026 consolida essa estratégia ao criar um ambiente onde conteúdo e experimentação se encontram. A presença da marca não está centrada apenas na visibilidade do evento, mas na oportunidade de oferecer soluções ao público, gerar repertório e reforçar que o cuidado com os cabelos pertence ao antes, ao durante e ao depois do treino.
Essa abordagem constrói relevância a partir do comportamento, e não apenas do produto. Quando a marca entende o contexto do consumidor, desenvolve conversas mais
consistentes e conexões que ultrapassam a duração de uma campanha. O esporte deixa de ser um cenário emprestado e se transforma em um território próprio de atuação. Para que isso aconteça, no entanto, é preciso coerência. Uma plataforma de marca não se constrói com ações isoladas, mas com: recorrência na presença e no discurso; profundidade no entendimento das dores do público; capacidade de evolução, escutando as comunidades e transformando aprendizados em experiências cada vez mais relevantes.
O valor do esporte para as marcas está justamente na possibilidade de continuidade. Ele reúne emoção, hábito, pertencimento e transformação pessoal, quatro dimensões com enorme potencial para gerar vínculos duradouros. As empresas que compreenderem esse movimento irão além da exposição de logo e construirão uma presença real na vida das pessoas. Quando isso acontece, o patrocínio deixa de ser uma simples entrega de mídia e se torna uma verdadeira plataforma de relacionamento, cultura e valor de marca.
* Giovana Orlandeli – Diretora de marcas e comunicação de Eudora, TRUSS, Vult e O.U.i, no Grupo Boticário.
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Marketing na era da IA: quando o feed satura, o produto precisa se vender

*Clarisse Medeiros
Sigo sendo uma voyeur entusiasta do TikTok, mas confesso: a onipresença das sacolinhas laranja tem testado minha paciência desde que o TikTok Shop desembarcou no Brasil. Meu reflexo, assim que o olho bate no ícone do social commerce, é pular o vídeo antes de ouvir o fatídico “eu sinto muito se você comprou ontem este jogo de lençóis”. No entanto, na semana passada, a barreira caiu. Fui convencida a clicar: comprei um kit de escovas de dentes coloridas por uma fração do preço daquela marca suíça das farmácias. No dia seguinte o produto estava na minha porta, embalado na caixa mais bonita que já vi para um item tão trivial.
Velocidade, preço, qualidade e a experiência tátil do unboxing redimiram o esforço de mídia de uma plataforma que, instantaneamente, ganhou um pouquinho da minha atenção. A conclusão é um nó na garganta da marqueteira aqui: a comunicação me afastou, mas o produto e a experiência me trouxeram de volta.
Pulemos as buzzwords habituais: economia da atenção, interrupção, relevância. O ponto central aqui é a eficiência: o que fazemos hoje para vender se o público desenvolveu imunidade à propaganda? A resposta é o retorno à essência: o produto.
A publicidade prometeu ao longo do tempo formatos menos invasivos, mas a entrega ficou na superfície. A categoria apenas sofisticou as formas de driblar o “skip”. O resultado? No esforço de sussurrar, acabamos gritando. Do outro lado da tela, o consumidor sabe que é disputado e se vê na posição de aumentar muito a exigência. Já não basta capturar a atenção, precisamos merecer o cliente. Como o discurso das marcas já não tem lá muita credibilidade, a prova real precisa chegar na porta de casa em 24 horas, dentro de uma caixa que surpreenda.
Dados da Edelman publicados em 2025 indicam que a confiança apareceu, pela primeira vez, como um critério de compra com o mesmo peso que preço e qualidade. A Kantar reforça essa tese: 75% da construção de marca ocorre fora da mídia paga, nas interações diretas e na experiência cotidiana.
A entrada da inteligência artificial na equação complica e simplifica ao mesmo tempo. Complica porque reduziu a quase zero o custo de produção de conteúdo, gerando uma “escassez às avessas”: o feed se transformou em um aterro de coisas iguais. Simplifica porque, neste cenário de ruído absoluto, o diferencial é o que sustenta o barulho: o produto. É aqui que uma marca AI native brilha. A IA pode não criar sozinha um anúncio “impulável”, mas, se bem dominada, ela viabiliza um produto digno de nota.
Aprendemos que nosso melhor argumento não é nosso, mas do cliente. Em reações como “Meu Deus, isso funciona”, “Caraca, dá pra fazer isso?” ou “Eita, nunca tinha visto esse dado”, o produto se vende. O marketing tem a função de instigar o teste. Depois disso, o produto assume a régua e um abraço.
Antes que se conclua que o marketing virou departamento decorativo: calma. Um vestido de alta costura trancado no armário é menos útil que uma camisola de camelô. As pessoas ainda precisam saber que sua marca existe, precisam de uma porta de entrada e de um motivo pra testar. O marketing de hoje constrói essa ponte com coerência entre o que a marca promete e o que ela entrega. Marca, produto e experiência agora jogam no mesmo time. É o novo growth e branding: produto, experiência e marketing sentando juntos no recreio.
A sugestão objetiva para quem senta na cadeira de marketing amanhã de manhã é: pare de tentar maquiar produtos medianos com campanhas geniais e vai colocar a mão na jornada. Seu próximo grande projeto não deveria ser um vídeo de 15 segundos para driblar o skip, mas sim garantir que o onboarding seja mágico, que o suporte resolva rápido, que a embalagem tire o fôlego. E se parte do orçamento de mídia financiar a experiência? Porque quando a entrega é impecável, o produto faz o barulho por você. E quando não é… bom, aí só resta cruzar os dedos e torcer para ninguém pular o vídeo da sacolinha laranja.
*Clarisse Medeiros – Head de marketing do Jota.
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O e-commerce brasileiro está amadurecendo e a conta chegou para o vendedor

*Tiago Vailati, CEO da Loopia
Nos últimos meses, TikTok Shop e Shopee anunciaram mudanças que afetam diretamente o bolso de quem vende nessas plataformas. As mudanças são em frentes diferentes, mas com o mesmo efeito: custo maior para quem opera.
No TikTok Shop, a partir de meados de julho, produtos abaixo de R$ 50,00 passam a pagar comissão de 10%, antes era 6%. Para produtos acima de R$ 50,00 a taxa fixa por item sobe de R$ 4,00 para R$ 6,00, um aumento de 50%.
Na Shopee, o movimento vem em duas frentes. A primeira: a plataforma transferiu para o vendedor a responsabilidade tributária sobre as comissões pagas a afiliados. Quem usa influenciadores para vender agora precisa emitir RPA ou nota fiscal e recolher os tributos por conta própria, antes essa responsabilidade era da plataforma. A segunda: um sistema de pontos de penalidade que passou a cobrar financeiramente quem acumula infrações. Atraso na postagem, falta de resposta ao cliente, cancelamento de pedido, anúncio com informação errada, tudo gera pontos.
Ao atingir determinadas faixas, a plataforma debita automaticamente do saldo do vendedor. Os valores vão de R$ 500,00 na primeira faixa até R$ 1.2 mil para quem chega a 50 pontos, além do congelamento de conta para casos mais graves.
Por que isso está acontecendo?
Não acho que seja surpresa, é o ciclo natural de qualquer negócio de plataforma.
O mercado de marketplaces cresceu rápido no Brasil nos últimos anos com taxas baixas, frete subsidiado e muitos incentivos. Era fase de expansão: conquistar lojistas, conquistar consumidores, ganhar escala.
Agora o jogo mudou. As plataformas estão consolidadas, têm base de usuários, têm infraestrutura, têm dados. E estão ajustando o modelo para ser lucrativo. Isso inclui investimentos pesados em logística, tecnologia, inteligência artificial e prevenção a fraudes.
Quando a plataforma cresce, ela migra do modo conquista para o modo resultado. E quem financia essa transição é o vendedor.
Isso não é necessariamente ruim. Mas exige que o varejista encare a operação de forma profissional e pare de tratar atendimento, prazo e gestão fiscal como algo secundário.
O consumidor vai sentir?
Diretamente, provavelmente não. Pelo menos não de imediato.
Quando o custo do vendedor sobe, ele tem três caminhos: absorver, repassar ou sair da plataforma. Os que absorvem comprimem a margem. Os que repassam ajustam o preço. E os que saem reduzem a oferta disponível.
A competição ainda segura os preços na maioria das categorias. Mas em segmentos com margens apertadas, especialmente os produtos abaixo de R$ 50 no TikTok Shop, que foram os mais impactados, o efeito vai aparecer mais cedo.
O consumidor pode não sentir no bolso agora. Mas vai sentir na oferta disponível, na qualidade do atendimento, e potencialmente no preço, quando a concorrência não for suficiente para absorver o aumento.
O que o vendedor precisa fazer agora
Primeiro: revise a precificação, as novas taxas já estão em vigor. Itens abaixo de R$ 50 no TikTok Shop perderam margem expressiva na mesma semana. Faz sentido manter todos eles no mesmo preço?
Segundo: olhe para o seu mix de produtos. O que era lucrativo semana passada pode não ser mais hoje. Uma análise produto a produto, considerando as novas comissões, é o mínimo que a situação exige.
Terceiro: organize a operação de afiliados. Se você usa influenciadores para vender na Shopee, a responsabilidade tributária agora é sua. Isso não é opcional, é obrigação legal, e ignorar vai gerar passivo.
Quarto, e mais importante: trate o atendimento como operação crítica, não como tarefa de suporte. O sistema de pontos da Shopee deixou isso explícito de um jeito financeiro. Uma semana com um problema de frete, dois atrasos de postagem e uma falta de resposta ao cliente pode facilmente ultrapassar os 20 pontos; e o acúmulo progride mais rápido do que parece.
O e-commerce não está encolhendo, está amadurecendo
Essa é a leitura que importa.
Por anos, o modelo do marketplace foi generoso com o vendedor: taxas subsidiadas, incentivos, crescimento fácil. Esse período acabou. E o vendedor que tratou o marketplace como renda passiva vai sentir a diferença com força.
Mas quem construiu operação sólida — precificação com margem real, atendimento profissional, gestão de prazo e estoque — tem uma oportunidade. Quando o custo sobe para todo mundo, quem opera com excelência sai na frente. Os outros saem da plataforma.
Pra pensar e agir.
*Tiago Vailati – Cofundador e CEO da Loopia, empresa especializada em agentes de IA para e-commerce e marketplaces








