Naty Sanches
Toda Copa deixa um legado. E as marcas se lembram dos personagens, não apenas dos campeões

Por Naty Sanches
A Copa do Mundo de 2026 chegou ao fim e, como acontece a cada quatro anos, deixou muito mais do que uma seleção campeã. O torneio também revelou novas histórias, protagonistas improváveis e momentos que ultrapassaram as quatro linhas para ganhar espaço nas redes sociais, nas conversas entre torcedores e, consequentemente, no radar das marcas.
Afinal, se o futebol consagra campeões, é a conexão emocional que transforma pessoas e acontecimentos em referências capazes de permanecer na lembrança do público.
Enquanto novos ídolos eram construídos dentro de campo, algumas marcas já mostravam que o legado de uma Copa é formado ao longo do tempo. Ao revisitar figuras marcantes de edições anteriores, elas reforçaram que a memória de um Mundial não é feita apenas de títulos, mas também de histórias que continuam relevantes anos depois.
Bastava observar algumas campanhas que estiveram no ar durante o torneio. A Keeta, plataforma global de delivery controlada pela chinesa Meituan, resgatou o “Feiticeiro do Hexa”, figura que surgiu espontaneamente durante a Copa de 2018. Na ocasião, o russo Iurii Torskii viralizou ao aparecer nas arquibancadas com uma bandeira do Brasil durante a partida contra o México e acabou sendo adotado pelos torcedores brasileiros como um símbolo de esperança pelo tão sonhado hexacampeonato.
Oito anos depois, a história ganhou um novo capítulo na publicidade. O retorno do “Feiticeiro do Hexa” mostrou como algumas narrativas conseguem atravessar o tempo e voltar a gerar conexão com o público.
O mesmo movimento apareceu na campanha da BetMGM, que apresentou o “Moluscão”, uma releitura bem-humorada do Polvo Paul, fenômeno da Copa de 2010 conhecido mundialmente por suas previsões de resultados. Mais do que uma referência nostálgica, a iniciativa reforçou como alguns símbolos esportivos permanecem relevantes e podem se transformar em ativos de comunicação mesmo anos depois.
O ponto em comum entre essas histórias é que nenhuma delas nasceu com o objetivo de se tornar uma campanha. Elas conquistaram relevância justamente porque carregavam algo difícil de construir artificialmente: autenticidade. Foram momentos reais, capazes de despertar emoção e gerar identificação, que encontraram no compartilhamento digital uma forma de ampliar seu alcance.
Em um ambiente em que disputar atenção se tornou um dos maiores desafios para as marcas, histórias genuínas ganham um valor estratégico. São elas que conseguem ultrapassar a lógica do consumo rápido de conteúdo e criar conexões mais duradouras com as pessoas.
A Copa de 2026 também criou seus próprios protagonistas espontâneos. Como acontece nos grandes eventos esportivos, alguns dos momentos mais marcantes não foram necessariamente planejados: nasceram de reações genuínas, cenas inesperadas e interações que encontraram nas redes sociais o ambiente ideal para ganhar escala.
Um dos exemplos foi o torcedor japonês que viralizou após a derrota do Japão para o Brasil nos 16 avos de final. Filmado durante a comemoração dos brasileiros, ele apareceu inconformado com a eliminação da seleção japonesa, enquanto era cercado por torcedores brasileiros e enrolado em uma bandeira do país. A reação, que ficou conhecida nas redes como a do “japonês pistola”, gerou uma onda de memes e transformou um torcedor anônimo em uma das imagens mais lembradas do torneio.
Outro nome que ganhou destaque foi o irmão mais novo de Lamine Yamal. Presente nas arquibancadas durante a campanha da Espanha, ele chamou atenção pelo jeito espontâneo, pelas comemorações e pelas interações com o jogador. Rapidamente, deixou de ser apenas um familiar de uma das maiores estrelas da seleção espanhola para se tornar uma figura recorrente nas redes sociais, com vídeos e memes compartilhados por milhões de pessoas.
Mas nem toda história viral está pronta para se transformar em uma campanha. Entre milhares de momentos que surgem durante uma Copa, as marcas precisam identificar quais têm potencial para representar algo maior. Esse processo passa por alguns critérios:
1. A conexão com a narrativa da marca
Uma história ganha força quando existe uma relação natural entre aquele protagonista e a mensagem que a empresa deseja construir. Não basta aproveitar uma tendência; é preciso encontrar um significado que faça sentido para a marca e para seu público.
2. A autenticidade como diferencial
Em uma era de excesso de conteúdo planejado, histórias espontâneas carregam uma vantagem: elas já chegam acompanhadas de uma emoção verdadeira e de uma conexão criada pelas próprias pessoas.
3. A capacidade de continuar relevante
O impacto de uma história não está apenas no pico de atenção gerado durante o evento, mas na possibilidade de continuar sendo lembrada e ressignificada ao longo do tempo. É essa longevidade que transforma um momento viral em uma plataforma de comunicação.
4. O potencial de gerar conversa
Os protagonistas que permanecem são aqueles que fazem as pessoas quererem compartilhar, comentar e participar da narrativa. A conversa criada em torno deles é parte do valor que uma marca busca ao incorporá-los em uma campanha.
Daqui a quatro anos, quando as marcas revisitarem a Copa de 2026, provavelmente não estarão olhando apenas para os campeões ou para os melhores lances. Elas estarão buscando as histórias que capturaram a atenção das pessoas e carregaram aquilo que toda grande comunicação procura construir: verdade, emoção e conexão.
Naty Sanches
Os pesadelos da comunicação: campanhas que se tornaram crises de marca

Por Naty Sanches
No universo da comunicação, nem toda campanha alcança o resultado esperado. Algumas, inclusive, acabam produzindo o efeito oposto: ao invés de fortalecer a imagem de uma marca, desencadeiam crises de reputação. Falhas de sensibilidade, escolhas criativas equivocadas e a falta de atenção ao contexto cultural e social podem transformar uma ação publicitária em um problema de grandes proporções.
Mesmo marcas consolidadas no mercado não estão imunes a esses erros. Casos envolvendo empresas globais mostram como decisões aparentemente pontuais podem ganhar repercussão, gerar críticas e exigir respostas rápidas das equipes de comunicação.
Aproveitando o clima de Halloween, resolvi listar alguns dos verdadeiros pesadelos de quem trabalha com comunicação: campanhas que, por diferentes razões, acabaram se tornando exemplos do que não fazer.
Converse (2026): a Converse retirou do ar uma campanha publicitária do modelo Chuck 70, estrelada por Karina, integrante do grupo de K-pop aespa, após receber críticas de usuários que identificaram possíveis referências visuais à Ku Klux Klan (KKK) e a linchamentos. Uma das imagens foi associada ao formato do capuz usado pelo grupo supremacista, enquanto outra, que mostrava tênis pendurados, foi interpretada como uma alusão a vítimas de linchamento.
A repercussão levou a marca a remover a publicidade das redes sociais e a publicar um pedido de desculpas – já removido. Em comunicado, a Converse reconheceu o impacto negativo da peça: “Pedimos desculpas. Entendemos por que essa imagem é profundamente perturbadora e reconhecemos que erramos”.
Burger King (2024): conhecido por sua comunicação provocativa, o Burger King gerou controvérsia ao lançar uma campanha do Whopper que tinha como protagonista Kid Bengala, ator de filmes adultos. Para reforçar o conceito de exagero, a peça explorava o duplo sentido do tamanho do sanduíche, com a frase: “Quem disse que tamanho não é documento nunca viu esse exagero”. A publicidade dividiu opiniões nas redes sociais e gerou críticas pelo teor sexual da abordagem. Diante da repercussão, a rede retirou o anúncio do ar e foi alvo de um processo no Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar). Em comunicado, a marca justificou a retirada como uma medida para evitar o prolongamento das discussões e da polarização em torno da campanha.
Gucci (2019): a Gucci foi criticada por comercializar um suéter preto que cobria parte do rosto e tinha uma abertura vermelha na região da boca. O design foi associado ao blackface, prática historicamente utilizada para ridicularizar pessoas negras. A marca retirou o produto de circulação e pediu desculpas publicamente.
H&M (2018): a varejista recebeu críticas após divulgar a imagem de um menino negro vestindo um moletom com a frase Coolest Monkey in the Jungle (O macaco mais legal da selva). A peça foi considerada racista, especialmente pela associação histórica entre pessoas negras e macacos. A marca retirou a imagem, pediu desculpas e removeu o produto de seus materiais publicitários.
Dove (2011 e 2017): a Dove enfrentou críticas em duas ocasiões por campanhas consideradas racistas. Em 2011, ao divulgar o sabonete líquido Dove VisibleCare Creme Body Wash, a marca apresentou uma sequência de imagens que mostrava uma mulher negra, identificada como o “antes”, dando lugar a uma mulher branca, no “depois”, acompanhada da mensagem de que o produto proporcionava uma pele visivelmente mais bonita. A composição foi criticada por sugerir uma associação entre a pele branca e a beleza. Seis anos depois, a marca voltou a gerar controvérsia com um GIF de três segundos em que uma mulher negra retirava a camiseta e se transformava em uma mulher branca, que, por sua vez, dava lugar a uma mulher asiática. A peça foi interpretada como uma associação entre a pele negra e a sujeira.
Diante da repercussão, a Dove retirou a publicação e pediu desculpas publicamente, reconhecendo que a peça não representava os valores da marca.
Nivea (2017): a Nivea também enfrentou acusações de racismo ao lançar uma campanha voltada ao público do Oriente Médio, com o slogan White is Purity (Branco é Pureza). A publicidade, que promovia um desodorante, associava a cor branca à pureza e à limpeza, uma escolha que gerou críticas por suas possíveis conotações raciais. A repercussão foi ampliada nas redes sociais, onde usuários questionaram a mensagem e a falta de sensibilidade da marca ao abordar temas relacionados à cor da pele.
Olhar para esses cases dá uma sensação incômoda, mas eles trazem um recado: a criatividade, por si só, não garante uma comunicação bem-sucedida. A intenção original de uma equipe criativa importa pouco quando a execução desconsidera a sensibilidade do público, ignora contextos culturais ou recorre a estratégias apelativas para gerar repercussão. Hoje, os consumidores questionam as mensagens, interpretam seus subtextos e cobram posicionamentos das marcas.
Garantir diversidade nas equipes de aprovação, avaliar os possíveis impactos de uma campanha, beber de muitas referências históricas e considerar diferentes perspectivas antes de sua veiculação não são meras formalidades. São cuidados fundamentais para reduzir riscos e evitar que uma ação planejada para fortalecer a marca se transforme em uma crise de reputação. Afinal, no universo da comunicação, prevenir um erro pode ser tão importante quanto saber reagir quando ele acontece.
Naty Sanches
Quando a gafe vira oportunidade: o que Heineken e Corona ensinam sobre real-time marketing

Por Naty Sanches
Uma foto postada por Shawn Mendes para felicitar Bruna Marquezine teve um detalhe importante, pelo menos para as equipes de marketing de duas grandes empresas. Era uma imagem do casal consumindo Heineken. Até aí, tudo bem, certo? Não exatamente.
Bruna tem contrato de exclusividade com a Corona e o registro rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais. O que poderia ser apenas uma situação desconfortável para uma das empresas se transformou em uma oportunidade de comunicação para as duas.
A Heineken entrou na conversa com o conceito de “Pack Anti-Paparazzi”, brincando justamente com a necessidade de esconder o produto em situações como aquela. A Corona, por sua vez, respondeu incorporando a própria Bruna à comunicação, em uma abordagem provocativa e bem-humorada. No vídeo, a atriz abre uma cerveja, ri e comenta: “o que foi? Você achou que seria o que?”.
As duas participaram da mesma conversa, mas escolheram caminhos diferentes. A Heineken aproveitou o contexto para fazer humor com a situação. A Corona transformou o episódio em uma oportunidade para reafirmar sua relação com Bruna.
E os números mostram o tamanho da repercussão. O vídeo da Corona com a atriz alcançou cerca de 13,5 milhões de visualizações, mais de 9 mil comentários e quase 2 mil reposts. Já a publicação da Heineken registrou cerca de 600 comentários e uma média de 100 reposts.
Mais do que uma disputa entre concorrentes, o episódio é um bom exemplo de como empresas podem participar de conversas que não foram planejadas e de como a velocidade, quando acompanhada de contexto e criatividade, pode gerar valor para a comunicação.
O planejamento também precisa deixar espaço para o imprevisto
Uma das mudanças mais interessantes trazidas pelas redes sociais para a comunicação é que nem tudo acontece dentro do calendário das empresas. A conversa pode começar em uma publicação pessoal, ganhar força entre os usuários e, em poucas horas, se transformar em um assunto relevante para os anunciantes. É nesse espaço que entra o real-time marketing.
Mas reagir rapidamente não significa simplesmente publicar qualquer coisa sobre um assunto que está em alta. É preciso entender se existe espaço para participar daquela conversa e qual abordagem faz sentido para o posicionamento de cada empresa.
No caso de Heineken e Corona, esse entendimento foi particularmente importante. Havia uma situação envolvendo duas concorrentes, uma celebridade e um contrato de exclusividade. Uma resposta equivocada poderia gerar mais problemas do que oportunidades.
Três aprendizados para as marcas
O primeiro é que planejamento e agilidade não são opostos. Uma estratégia bem construída também precisa permitir que uma empresa reaja ao que não estava previsto. Afinal, nem toda oportunidade de comunicação aparece no calendário.
O segundo é que contexto importa tanto quanto criatividade. A mesma situação pode gerar respostas completamente diferentes e, no caso de Heineken e Corona, foi justamente a identidade de cada uma que definiu o caminho escolhido.
O terceiro é que estar preparado para reagir faz parte da estratégia. Monitorar conversas, entender a cultura das redes e ter equipes capazes de tomar decisões rapidamente são fatores que aumentam as chances de aproveitar momentos que surgem espontaneamente.
No fim, o caso envolvendo Shawn Mendes e Bruna Marquezine mostra que as melhores oportunidades de comunicação nem sempre chegam com briefing, cronograma ou aprovação prévia. Algumas simplesmente aparecem.
Para as empresas, o desafio não é controlar tudo o que acontece. É saber reconhecer quando vale a pena entrar na conversa e encontrar uma forma de fazer isso que pareça natural, relevante e, principalmente, coerente com quem são. Porque, em um ambiente em que as conversas mudam em questão de horas, estar preparado para o imprevisto também é uma forma de planejamento.








